joão caminhava pela calçada com a mochila nas costas, às 00h05 da
madrugada, seguido pela mãe. ele teria uns 9, talvez 10 anos. ambos voltavam da casa de uma amiguinha da escola,
onde o menino costumava esperar a mãe acabar o expediente de trabalho. carregava um fino
galho de bougainville na mão, arrastando-o pelo chão, mexendo nas bitucas de cigarro que encontrava pelo caminho. vez ou outra mudava o foco e futucava uma árvore mijada que
acompanhava o asfalto.
- mãe, eu tenho andado mais atento.
a mãe não reagiu de imediato à constatação do filho, que
pareceu mais uma brevíssima (e inusitada) confissão. só a noite respondeu a criança, com um chiado impreciso de burburinhos das televisões ligadas nos apartamentos.
- por que, meu filho?
sem olhar para trás, a criança continuou suas elucubrações, já sabendo que em algum momento a mãe
demandaria uma explicação mais elaborada. ela sempre fez isso.
- é como se eu soubesse que alguma coisa ruim vai acontecer.
ouvimos o estalo da porta eletrônica se abrindo. era o porteiro antecipando a
chegada da mãe e do filho. no cruzamento de ruas mais à frente, ouvimos o ronco de uma motocicleta a se aproximar.
Publicado por Maria CaPoeira
Imagem de André Kertész

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