eu achei que ele vinha comemorar meu nascimento
batendo em minha porta. quando aconteceu, a sensação foi de que queria bater em mim, e só não fez
porque é aleijado das suas vontades. exatamente 34 anos depois, ele acordou no
dia seguinte e, sem vergonha ou medo, porque confiante em seus próprios
preconceitos, chamou-me para fora de onde fiz porto-seguro. fez-me abrir a
porta que mantenho trancada a todo minuto, como se fosse um amistoso visitante. farsante. e de lá de fora, com a ousadia para mostrar sua ignorância, ele
vomitou por alguns poucos minutos. ou foram meses? ainda sinto o fedor de seu
vômito invadindo as frestas da porta, passando sorrateiro por debaixo, ou pelo
minúsculo buraco da fechadura. chorume e suor de macho asqueroso que não toma
banho, e que não sorri. às vezes as cores de seus excrementos bizarros fazem
mancha em minha janela também, como se fizessem parte da paisagem da cidade. em
resposta, fecho as cortinas. que horror! impregna tudo, cheiro, cor... uma nódoa existencial difícil de sair. talvez eu deva limpar a imundice que ele deixou com “diabo verde”,
passar alfazema nas janelas, espalhar sal grosso pelo piso, rodapés e ralos. foi assim, falando em voz alta com o ódio mortal de si mesmo, e sem sorrir, que um homem vomitou em cima de mim. meu corpo, minha história, minha família, minhas
origens, meu conhecimento, minha experiência de vida, tudo foi contaminado pela
substância tóxica que ele expelia. e expele todo dia, ouço daqui. sinto o cheiro repugnante. vômito de homem é uma merda difícil de limpar!
publicado por Maria CaPoeira
imagem de autoria desconhecida
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| fonte: https://www.greenme.com.br/morar/faca-voce-mesmo/4002-10-produtos-de-limpeza-nunca-comprar |

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